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curvas, retas e esquinas

domingo, 27 de outubro de 2019

Acanhados © Copyright


Se serenasse na primavera de um amor e cantasse como ondas que anunciassem o mar: ilustrar-se-ia, o cenário, como quem pinta o céu, ante a luz que lhe apontasse para aportar. Se desenhasse o farol que apontasse ondas amenas num porto de calmarias: visualizar-se-ia terra fértil para brotos de ternas alegrias.

Caso ali a flor brotasse e se esvoaçasse, feita pétalas de beija-flor, em qualquer lugar que ali plantasse: germinar-se-ia em broto, feita flor; polinizada amante, rosa decorosa que se faria corada; quem diria! Seria luz brilhante, rubro diamante, menina flor que ali brotou; seria graça de sagradas pétalas de romaria.


Brincar-se-ia uma guerra de lençóis de brisa, onde o amor sopraria asas de um respirar frenético. Teria pele, feito cobertor, e o suor, orvalho de um amor não cético. Orvalhar-se-iam, numa alegria ousada de cabaré! Seriam amantes: Jardineiro e flor; flutuantes ondas eriçadas, ou trazidas ternuras de uma maré. By betonicou
Arte: Peter Mitchef

domingo, 13 de outubro de 2019

Horizonte na catedral © Copyright



Lá daquela porta, eu pude sentir entre os acenos mórbidos de um final tão trágico. Entre as flores mortas eu vi um broto válido e entre um cair tão sórdido me vi num chão não sólido e entre risos loucos, me vi num espaço de fluir. Sensações não materiais! Tão longe de tudo e tão livre das coisas vãs e acidentais! Uma janela para um mundo fantástico, uma porta para um mundo calmo e plácido, pipas no ar e um coração não gélido. É tudo que sonhei, nesse meu tempo de pensar e refletir. Sou passageiro, às vezes ocasional e sou navegante das gerais. Tenho as montanhas como berço sólido. Tenho um horizonte que me dá o berço plácido e tenho as manhãs calmas, tão dominicais!  Tão perto de tudo e das coisas tão naturais: A lembrança de um amor que voou tão pássaro, uma flor que brotou nesse chão antes árido e esse vento calmo, que é o meu sinal e o meu jeito de existir. Novo horizonte das manhãs! Uma vida nova tem os seus mistérios e todos os mistérios tem as causas lógicas! Eu queria apenas o ar puro, longe das coisas sádicas e, as músicas das esquinas poder ouvir. Eu quero apenas o santo ar da catedral!  Na sala da José, um espaço de dormir.
By betonicou

Arte: David Hale- Luciana Pupo
Nota: Aqui faço uma pequena e carinhosa alusão à igreja Saõ José; localizada no centro de Belo Horizonte . Minha cidade natal é cercada pelas imponentes montanhas das Gerais. (tomara  que continuem....)

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Desalento© Copyright



As rosas choravam suas pétalas imersas na escuridão. Os ventos sopravam acordes baixos ante o peso da amargura. Havia lírios a enfeitar as bordas dos riachos e as vidas caminhavam pelas trilhas da terra; como pirilampos acesos de almas. O mar veio vermelho sobre os desavisados e inocentes; apenas eram levados como folhas desgarradas de um precipitado outono. Era o silêncio a lhes afogar em lama de ferro conforme a vida lhes emergiam; eram soprados para uma brusca liberdade. As nuvens não choraram suas lágrimas comoventes, pois era o sol a iluminar os guerreiros e salvadores caminhantes. A esperança sofria de seus choros empáticos, à medida que escavavam pela primavera de flores. Ainda há ventos tristes e cabisbaixos, a chorar melancólicos de dores. (Mariana e Brumadinho; dores inesquecíveis!)


by betonicou ( sugerido pela querida Majo)
Arte: Nicoletta Tomas Caravia
Obs: A grande fortuna da vale compra os olhares  da justiça brasileira; uma lástima .

domingo, 25 de agosto de 2019

Aspas memoriais. © Copyright

São as marcas das cenas dos sorrisos graciosos que do rosto se esboça sem dor. São estrelas pequenas com raios dourados que essa vida nos marca de amor. São os olhos, os sois de poemas, a irradiar aspas singelas que da alma é luz. São espelhos pequenos emoldurados de sinais que o tempo esculpiu e reluz. É instante presente do dia a dia, que nesse tempo pelas aspas traduz. Que sorriso diferente da boca da gente e que coroa graciosa nos olhos que no tempo se fez! Que graça gostosa, tão decorosos, são esses sinais que são dessa vez. É a graça do rosto emoldurado em sorrisos e olhares de versos realçados; sinais marcantes de linda poesia. São aspas essas ranhuras gravadas, como asas, a nos voejar na singela nostalgia. São raios de sol, que ao devido tempo é ocasional. São as marcas, essas rugas de aspas, a guardar dentro, o que é todo especial e memorial.
By betonicou  
Texto encomendado por Cátiaho do lindo Blogue: Espelhando e espalhando amigos. Dedico com carinho a essa querida amiga .

terça-feira, 23 de julho de 2019

Queda e paraiso© Copyright




Era de mato, o tapete e a cama, a me descansar sob a lua. Era de beijo a boca calada, sem voz, pois não havia espaço nem desejo de falar onde a ternura pousou silenciosa. A noite gritou em grilos; falantes arruaceiros a silenciar de barulhos inocentes a minha prece. A manhã chegou, apenas com a voz rouca de galo, a cantar desafinado, mas bonito. O sol chegava devagar, lá no outro horizonte, a olhar pelas frestas, por detrás da floresta de picos erguidos, como agulhas cinzas de torturas sobre a montanha encoberta de esquecimentos, que era um jeito de ser triste por detrás de uma falsa e ilusória alegria. Não havia cheiro de mato chovido pelo orvalho, e sim, o asfáltico perfume de flores murchas, mortas, pois nem chegaram a nascer. Havia até um certo deslumbrar pelas estrelas que pálidas cintilavam tímidas num céu escuro e tomado por uma teimosa névoa de civilidade, enquanto num canto acanhado da terra brincava-se simples, de horizontes dourados e gotículas cruas e ingênuas sobre o mato para pés descalços e salvos da tola e fragilizada polidez.  By betonicou


Membro da academia de letras de Santa Luzia ( Aluz) ocupando a cadeira Manoel de Barros. "A Deus toda a gloria!" Até aqui o Senhor me tem guiado. 
Arte: Laurel Burch 

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Sublime© Copyright

Não são falas de dores, são apenas falas levadas pelo ofegar. Se o coração amolece quando o amor lhe é cantado, tudo estremece; seja ar, terra, fogo ou mar.  Quando o peito esmorece pela triste paixão que é fugaz, o rio estremece de seus transbordantes despejos e as enxurradas alagam no vermelho barroso de enciumar.

Sentimento, que até o emudecido proclama em agigantadas falas.  Guardado em lugar inefável, em um coração por ele todo afagado e diluído.  É diluvio de águas claras, num jorrar de diáfanos desejos.  É porta para um jardim singelo, sem as ervas daninhas nascidas dos danosos e lúbricos ensejos.

Não há vento que não se alegre em tocar em brisas mansas esse amor, que é flor sem par. Sentir esse mesmo vento, que abusado acaricia a pele debaixo de todos nós; andantes varais abaixo desse amor, que é sublime luminar.  Não há fogo que mais aqueça a casca morna, em arrepiados e gélidos efeitos. É esse ato, tão perene e sereno de amar.

Sim, é o amor, a flor dourada plantada aqui na terra dos mortais. Fiel artífice e provedor das orbitas cintilantes, tal qual o brilhar das estrelas. É lua morna e branco lençol sobre os corpos, que sufocados, ardentes se enrolam no mel refinado em prazer inaudito. Esse amor que enobrece as causas nulas. Doce palavra, que de tanto falar se cala, ante o coração que se acelera em tambores de guerra; indo de encontro, de quem tanto ao peito almeja. By betonicou




 Arte: Albena Vatcheva


quarta-feira, 5 de junho de 2019

Apenas janelas © Copyright

Vejo um final pelas janelas. Vejo as flores de uma aquarela prestes a cair. Vejo o sol da primavera acenando para um outono que está por perto; está por vir.  Vejo o aceno das cores vermelhas num início de tarde, após as aquareladas irmãs, num jardim florido de saudade. Vejo a luz, como a luz de velas, e esse, é o retorno ao meu juízo final. Não há sol após a primavera, nem outono; há apenas minha era, de um tempo todo glacial. Porém, ainda vejo à luz de velas pelas fechadas janelas das manhãs. Ainda sonho o mar, com suas naus de velas levando minhas lembranças velhas, nas ondas de memorias tão anciãs. E vejo o sol reduzido à uma tênue luz singela trazendo uma tarde. Vejo a despedida em nuvens vermelhas, que de tão belo eu faço alarde. Ainda tem noite de lua, no final da estação de cores suaves, quentes e belas. Vejo lá no horizonte, raios de sol surgindo por entre as nuvens, que são mar; avançando feito caravelas. Percebo, que quem se despenca, são sementes plantadas para as coisas mais singelas.   Vejo ainda pelas janelas, tantas coisas que são belas: Um sol com vento, uma tarde, um enluarado beijo acanhado nos singelos bancos de capelas.



by betonicou



Arte: Anna Silivonchik