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curvas, retas e esquinas

terça-feira, 23 de julho de 2019

Queda e paraiso© Copyright




Era de mato, o tapete e a cama, a me descansar sob a lua. Era de beijo a boca calada, sem voz, pois não havia espaço nem desejo de falar onde a ternura pousou silenciosa. A noite gritou em grilos; falantes arruaceiros a silenciar de barulhos inocentes a minha prece. A manhã chegou, apenas com a voz rouca de galo, a cantar desafinado, mas bonito. O sol chegava devagar, lá no outro horizonte, a olhar pelas frestas, por detrás da floresta de picos erguidos, como agulhas cinzas de torturas sobre a montanha encoberta de esquecimentos, que era um jeito de ser triste por detrás de uma falsa e ilusória alegria. Não havia cheiro de mato chovido pelo orvalho, e sim, o asfáltico perfume de flores murchas, mortas, pois nem chegaram a nascer. Havia até um certo deslumbrar pelas estrelas que pálidas cintilavam tímidas num céu escuro e tomado por uma teimosa névoa de civilidade, enquanto num canto acanhado da terra brincava-se simples, de horizontes dourados e gotículas cruas e ingênuas sobre o mato para pés descalços e salvos da tola e fragilizada polidez.  By betonicou


Membro da academia de letras de Santa Luzia ( Aluz) ocupando a cadeira Manoel de Barros. "A Deus toda a gloria!" Até aqui o Senhor me tem guiado. 
Arte: Laurel Burch 

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Sublime© Copyright

Não são falas de dores, são apenas falas levadas pelo ofegar. Se o coração amolece quando o amor lhe é cantado, tudo estremece; seja ar, terra, fogo ou mar.  Quando o peito esmorece pela triste paixão que é fugaz, o rio estremece de seus transbordantes despejos e as enxurradas alagam no vermelho barroso de enciumar.

Sentimento, que até o emudecido proclama em agigantadas falas.  Guardado em lugar inefável, em um coração por ele todo afagado e diluído.  É diluvio de águas claras, num jorrar de diáfanos desejos.  É porta para um jardim singelo, sem as ervas daninhas nascidas dos danosos e lúbricos ensejos.

Não há vento que não se alegre em tocar em brisas mansas esse amor, que é flor sem par. Sentir esse mesmo vento, que abusado acaricia a pele debaixo de todos nós; andantes varais abaixo desse amor, que é sublime luminar.  Não há fogo que mais aqueça a casca morna, em arrepiados e gélidos efeitos. É esse ato, tão perene e sereno de amar.

Sim, é o amor, a flor dourada plantada aqui na terra dos mortais. Fiel artífice e provedor das orbitas cintilantes, tal qual o brilhar das estrelas. É lua morna e branco lençol sobre os corpos, que sufocados, ardentes se enrolam no mel refinado em prazer inaudito. Esse amor que enobrece as causas nulas. Doce palavra, que de tanto falar se cala, ante o coração que se acelera em tambores de guerra; indo de encontro, de quem tanto ao peito almeja. By betonicou




 Arte: Albena Vatcheva


quarta-feira, 5 de junho de 2019

Apenas janelas © Copyright

Vejo um final pelas janelas. Vejo as flores de uma aquarela prestes a cair. Vejo o sol da primavera acenando para um outono que está por perto, está por vir.  Vejo o aceno das cores vermelhas num início de tarde, após as aquareladas irmãs, num jardim florido de saudade. Vejo a luz, como a luz de velas e esse, é o retorno ao meu juízo final. Não há sol após a primavera, nem outono; há apenas minha era, de um tempo todo glacial. Porém, ainda vejo à luz de velas pelas fechadas janelas das manhãs. Ainda sonho o mar, com suas naus de velas levando minhas lembranças velhas, nas ondas de memorias tão anciãs. E vejo o sol reduzido, à uma tênue luz singela trazendo uma tarde. Vejo a despedida em nuvens vermelhas, que de tão belo eu faço alarde. Ainda tem noite de lua, no final da estação de cores suaves, quentes e belas. Vejo lá no horizonte, raios de sol surgindo por entre as nuvens que são mar; avançando feito caravelas. Percebo, que quem se despenca, são sementes plantadas para as coisas mais singelas.   Vejo ainda pelas janelas, tantas coisas que são belas: Um sol com vento, uma tarde, um enluarado beijo acanhado nos singelos bancos de capelas.



by betonicou



Arte: Anna Silivonchik


domingo, 19 de maio de 2019

Minha mãe mulata.© Copyright

Candura, beleza, ternura!  Onde estás minha mãe?! Beleza pura, suave e morena, que falta me faz! Herança ébano da mãe África!  Flor de maracujá do Brasil. Beleza marrom. Mistura de orquídea negra, cravo, margarida e jasmim. Tua voz e teu riso.  Que falta tu fazes, em mim! Ainda hoje, me lembro da canção de ninar. Tua terna voz constante a chamar: Filho, filho, onde estás? E eu, teu rebento correndo ao encontro da voz familiar, e quando suspenso em teus braços tendo meu rosto beijado vou, ao teu rosto beijar. Sou tua raça forte! Mistura da magia de terras irmãs. Teu sangue negro, mulato, índio da terra brasis pulsa em mim, em rios vermelhos carmins. Morena mulata, mulata morena. Mãe linda, suave, serena. Teu cheiro ainda me lembra um doce aroma, gostoso dos mais puros jardins. Ainda ouço, a terna voz a chamar-me de filho e eu, de chamá-la de mãe. Teu carinho e eu manhoso, no teu rosto, meu rosto roçar. A leveza do teu beijo, o meu beijo no teu rosto colar.  Ai! -Que falta tu fazes, minha negra branca, dos sóis girassóis. Cá está teu filho! Quero vós; colo e afago.  Teu amor era sublime amparo. Rever teu rosto, ternura, mimo, era minha proteção do medo. Quero retorno da felicidade que nesta altura, é meu maior desejo. O que restou, senão minha plena saudade!  Do teu chamego! Teu dengo! Da joia incrustada entre teus lábios! Teu sorriso brilhante, em moldura rubi! Do teu brilho dourado e sempre fora, assim que te vi. Ouvir teu chamar e revê-la, mais uma vez. Olhar teu olhar, com orgulho e teu rosto vislumbrar. Minha linda mãe morena mulata! No reencontro, juntos tornar a sorrir. Mãe e filho, filho e mãe no eterno jardim! Eu sou de você e você é de mim.




by betonicou


Arte: Di Cavalcante-Cândido Portinare





quinta-feira, 2 de maio de 2019

Renascimento © Copyright


 Derramar tão cedo, com flores prestes a nascer, é entregar a vida a um começo.  Espelhar a vida, com o sol despontando no amanhecer e os amarelos canários e pardos pardais anunciando, é como uma prece daquela calma e as brisas, são carinhos que tocam toda a alma.  Se derramar tão cedo, é como uma oração ao renascer e enxergar a vida, a cada começo. Ver chegando o sol todo brilhando, é a vida da alma e se for chuva, é o mar de cima acariciando e fazendo de tudo, que tão bem conheço. E todos esses jeitos são notas de uma canção e quando chegam, à noite, tudo se transforma, de novo em oração. E tornar a dormir, como num ventre prestes a renascer, é tornar a ver o recomeço! São as cortinas dessa vida. É singela cantiga leve e poesia, tão bem definida!   Se derramar de novo e acordar o que vem nascer, são as puras mães anunciando; e cada renascer reluz e refrete, como um espelho.  E as manhãs, são canções que proclamam minha vida, tua vida, nossa vida.
by betonicou
Arte: Maria Pace-Wynters e Claudia tremblay

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Paz de corvo © Copyright





Caiu do céu uma flor e despencou-se, de meus olhos. Caíram folhas e entornaram os anjos que voejavam meus sonhos. O universo vomitou os seus corvos na minha rua. As bandeiras já não tremulam as minhas cores brancas. Saíram para passear e não retornaram, as minhas ovelhas. Tudo é soma, até a sorte que nos deixa e despreza. Tudo é conquista, pois até o que se perde, às vezes e´ sorte. Caíram do céu e despencaram-se as nuvens macias do azul. Porém, o azul e´ lindo e   as nuvens embaçavam- lhe os sentidos. O que é o frio, senão o escuro sem calor que nos envolve, ou o silencio que buscamos na música que nos fere os ouvidos? A minha paz é branca, porém a guerra, e´ que tinge minha bandeira. O universo canta o meu silêncio, porém meu frio pede lã. Ainda caem tempestades onde apenas o orvalho é necessário. Não, ainda digo que não sei onde caem as minhas flores! A certeza, é que caíram de mim, no fechar dos meus olhos. O azul e´ lindo, porém, é o marrom que se aproxima; dia a dia. Meus pássaros imaginários cantam e voam nas minhas preces. Oh! - O inverno chegou e minhas asas congelaram-se no seu voo. Mãos se aproximam e não me deixam cair sobre meus próprios espinhos. As minhas preces são elevadas e entregues em bicos de pífaros. Digo que não sei! Finjo que não sei da luz que se apagou. Eu sei que caiu aquela flor e minhas águas desaguaram. As minhas preces foram ouvidas e ditas a mim pelos gorjeios. São os pássaros, a me carregarem   no balaio do meu sono. E eu estive onde o ar já não sustentava as minhas asas quebradas. As nuvens que caíram receberam-me, no macio do seu conforto. Eram agora, melhores que o azul que se pôs distante; no infinito. Branca, é a paz que circula as janelas, para o meu mundo interno.
  
 by betonicou- 


Arte: Huginn e Muninn -Ren Gran

domingo, 24 de março de 2019

Fugaz © Copyright



Quando se for, a saudade do amor não vale. Quanto se vale, é o peso do que ficou nos suspiros. As nuvens estão macias e o espirito encontrou travesseiro, à medida que  o ar lhe preparava os caminhos leves para dormir. 


A alma gorjeava, com sua leveza a tocar o sol e o vento dissipava como poeira póstuma, os restos do amor, que na saudade havia sido sepultado. A leveza voava seu passarinhar cósmico e sem pudor tocava as estrelas.

As lembranças vagavam desajustadas num redemoinho louco, porque na memória, se esperava teimoso uma vã ilusão. O vento levava flores que rodopiavam bêbadas num ar alcoolizado enquanto a lua sorria, debochada.

Era a rede, a cama para deslumbrar a escuridão que vinha com suas sombras voantes, à medida que a paixão fugia tola pelas janelas abertas de um olhar mais claro. Se se mede o amor; aquele era mais baixo que minhas sonhadas nuvens. 

by betonicou - Arte: Yana Fefelova