Era uma árvore com sombras frescas, gerando sombras
sob sua copa frondosa. Filha da natureza, erguia-se como uma bandeira verde
sobre a montanha fria de mármore. De frutos pendentes e orvalhados, reinava na
serra com a majestade de uma rainha.
A deusa da montanha erguia-se em tronco de carvalho.
Meu corpo descansava, debruçado no quadro vazio de madeira. Porém, meus olhos
já não viam o motivo da minha saudade. Lá na serra, havia um "ser" de
madeira. Eu, seu órfão, sentia-me vazio na minha maturidade.
Sou órfão das minhas lindas lembranças. Sou órfão de
quem habitava a altitude da montanha, de quem era o motivo das minhas
constantes contemplações. Sou órfão de tudo que a criança via. Sou filho das
minhas recordações.
A serra era o meu quadro, o enfeite da minha
inocência. A árvore erguia-se sobre a pedra fria, suprindo de beleza a
descoberta frígida, embrulhada em lençóis de carência. A minha janela
emoldurava o quadro da serra, num abraço delicado e terno.
O inocente olhar imaginava o para sempre, que nem
sempre é eterno. Eu me lembro das ruas singelas, da nudez do chão de barro
vermelho. Eu me lembro de todas as flores que cobriam a serra. Cobriam-na por
inteiro.
Lá na serra, habitava a nobreza, a majestade com
corpo de árvore. Hoje, lá na serra, há a insana pobreza dos edifícios sem vida,
lápides da árvore, sobre a frieza mórbida do mármore.
Betonicou©
Responderei caso for preciso.
Segundo volume, da trilogia Moheki, a caminho!
Sigam-me no Instagram! @betonicou
Meu bom amigo Adalberto,
ResponderExcluirSomos todos filhos e filhas das nossas recordações... Órfãos de nossas lindas e lúdicas lembranças.
Porém, as flores de “ontem”, que cobriam a serra, ainda teimosas, romperam fronteiras, enfeitaram a vida e se entregaram a morte sem despedidas.
Abraços alvinegros, meu nobre poeta... E segue o líder!!!
O flagelo dos incêndios este ano anuncia-se mais cedo e mais devastador.
ResponderExcluirChega a doer ...Lindo de ler! Hoje tanto mudou... Linda demais tua poesia,Beto! abração,chica
ResponderExcluirNature does not take revenge on human beings, it only defends itself against the absurd abuses committed against it.
ResponderExcluirA beautiful inspiration
A hug.
Um texto muito rico. Adorei! Obrigada pela partilha :)
ResponderExcluir.
Num sem fim de tormentos...
.
Beijos e uma boa tarde.
Olá, amigo Betonicou!
ResponderExcluirEstou vivendo uma tarde sombria por um ente familiar na UTI e vir aqui ler seu post me trouxe um pouco de paz na alma.
"Sou órfão de tudo que a criança via. Sou filho das minhas recordações. "
Como me identifiquei com o entre aspas acima...
Fui percorrendo seu cenário e me recordando do meu... era interior e cheio de morros onde subia e descia com meu pai amado que amanhã faria 99 anos.
Obrigada por encher nossos olhos de beleza na linda prosa poética.
Que nunca nos faltem jardins envoltos em pedras! Assim eram os meus da casa da infância...
Tenha um maio abençoado!
Abraços fraternos
Olá querida Roselia! Fico feliz que meu escrito tenha-lhe ajudado neste momento crítico. Desejo-lhe força e paz. Que nossas recordações nos embalem em ninhos amorosos! Grande abraço!
ExcluirOlá, achei lindo. Sou apaixonada pela natureza e a árvore tem tb um significado relacionado ao instrumento da área de Terapia de família, ou seja, árvore genealógica, que nos traz muitas recordações e conhecimentos importantes para o autoconhecimento.
ResponderExcluirMuito poético seu texto. Grata pela partilha
Olá :)
ResponderExcluirCheguei aqui através do blog Art and Kits , e ainda bem que vim.
Eu também me lembro do tapete de flores que cobria as serras da minha infância e da sombra fiel dos castanheiros nas horas de sufoco.
Gosto de árvores, gosto de pedras e de memórias e também gosto do que tão belo e poético escreveu.
Vou voltar com mais tempo.
Brisas doces *
Tão belo, Beto!
ResponderExcluirPoesia belíssima, estimado Amigo.
A humanidade não pára de crescer e destruir a natureza... Como será nos próximos séculos?!
Fiquei encantada com este texto belíssimo -- todos somos órfãos de algo destruído pela 'civilização'...
Beto, a sua escrita vai apurando com o tempo, é como o nosso Vinho do Porto que vai ficando delicioso.
Passe pelo 'Convívio de Poetas'...
Penso que vai gostar...
O meu abraço amigo.
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Somos órfãos de tudo o que, com a vida, se foi perdendo. Este texto, magnífico, diz tudo. Só posso responder com o silêncio que a minha orfandade me pede.
ResponderExcluirTudo de bom.
Uma boa semana.
Um beijo.
Querido Beto, esse seu texto poético está incrivelmente belo, tocante, dá vontade de chorar, amigo! Fui pontuando minha vida, também, tão cheias de perdas e lembranças que ficaram na mente e no coração. Você escreve tocando nesses pontos doloridos que foram importantes e que ficaram no passado, foram substituídos, é lógico, em parte. Outras coisas muito boas aconteceram, mas nossas perdas além da saudade, doem um pouco. Mas essa de nos emocionar, é a arte do poeta, fazer o quê? Tão lindo seu texto, amigo!
ResponderExcluirAplaudo você, sempre.
Uma feliz semana, paz e alegria!
Um beijo.
Passando aqui Beto,
ResponderExcluirPara desejar um lindo domingo.
Bjins
CatiahoAlc.
Um texto poético lindíssimo, emanando pura sensibilidade! O passado não regressa, se bem que muitas das nossas atitudes e aprendizagens possam contribuir para construir novas recordações, tão preciosas quanto as que não conseguimos recuperar do passado, para novos presentes...
ResponderExcluirÉ um texto que brilhantemente, também aponta a capitulação da natureza, face às crescentes exigências territoriais que as sociedades reclamam para si mesmas... tomando as florestas de cimento, lugar da natureza pura de outrora... onde todas as memórias perfeitas não podem ser recuperadas... nem com o mais actualizado dos confortos citadinos...
Parabéns, por mais um texto notável, Beto!
Estimo que todos os seus projectos , presentes e futuros, estejam fluindo com o maior sucesso e reconhecimento!
Estive ausente nestes últimos meses, tratando de mais um súbito problema de saúde da minha mãe... uma dermatite brava, combinada com problemas circulatórios nas pernas, que uma vez iniciada se complica em pouco tempo, exigindo tratamentos e consultas quase em modo diário. Por enquanto, com o problema mais controlado... mas ainda não totalmente ultrapassado... vamos ver como decorrem as próximas semanas ainda...
Um beijinho! Tudo de bom! Feliz Agosto!
Ana