Quero uma pátria azul,
da cor do céu.
Quero a chuva pingando mel
sobre a terra que amo —
doce às vezes,
outras, fel.
Quero amor de véu leve,
casamento em chão estimado.
Não quero ser o que não sou:
sou alma alada,
voo imaginado.
Quero terra de coração materno,
raízes profundas.
Pátria de rios e lagos transbordantes,
não de lágrimas correndo
em rostos derrotados.
Que o desejo não seja o leito alagado
das promessas fáceis,
mas o passo firme
dos baluartes dançantes ao vento.
Que anjos cantem —
não para o poder,
mas para o silêncio.
Que a lágrima vire orvalho
na manhã singela,
flor que se abre
rumo ao alto.
Quero passarinhos em um só ninho:
sabiás, canários, pretos —
um só canto,
sem vaidade.
Creio numa pátria gentil,
onde amar vem antes
de mandar.
Bandeira estiada como flor,
lírios e orquídeas
abraçando riachos.
Que o céu toque a terra
com mãos abertas.
Que rostos pintados
sejam aquarela original,
guiando trilhas verdes,
sem miséria escorrendo
pelas encostas.
Ah, Brasil —
que teu anil
não seja promessa,
mas caminho.

