Ah, se tiro das nuvens tempestades:
os trovões são meus gritos.
Se as águas são meu derramar
de verdades ou inverdades,
diluo-me — com prazer —
entre ruas e guetos,
nos conflitos que carrego.
Danço sob os pingos,
banho a pele nos encontros.
A chuva que molha
é a mesma que lava,
companheira da dança
em que a alma se declara.
A alegria vem pela manhã.
O sol é lençol brilhante
que me entende.
As notícias me procuram,
mas os fatos não me surpreendem.
O que acontece nas ruas e becos,
o que se revela entre o abrir e o aperto.
O que não está
espia pelas frestas,
onde a verdade se esconde.
Os pés que tateiam o chão
são os mesmos que o compreendem.
Rostos — molhados ou não —
são máscaras do que se insinua.
Ao buscar a razão, descubro:
é a emoção que me esconde.
Vidas derramadas nos divãs
são enxurradas
ou leveza de água no chão.
A tarde é parte do tempo
para saber onde estou.
Antes da manhã,
a noite estendeu um varal
para secar ao sol
o que a tarde molhou.
De mim,
ficaram pingos
que não caíram em vão.

