
Era de mato o
tapete e a cama, a descansar-me sob a lua. Era de beijo a boca calada, sem voz,
pois não havia espaço nem desejo de falar onde a ternura pousou silenciosa. A
noite gritou em grilos falantes, arruaceiros a silenciar de barulhos inocentes
a minha prece. A manhã chegou, apenas com a voz rouca de galo a cantar
desafinado, mas bonito. O sol chegou devagar, lá no outro horizonte, a olhar
pelas frestas, por detrás da floresta de picos erguidos, como agulhas cinzas de
torturas sobre a montanha encoberta de esquecimentos; que era um jeito de ser
triste por detrás de uma falsa e ilusória alegria. Não havia cheiro de mato
chovido pelo orvalho e, sim, o asfáltico perfume de flores murchas, mortas,
pois nem chegaram a nascer. Havia até um certo deslumbrar pelas estrelas que, pálidas, cintilavam tímidas num céu escuro e tomado por uma teimosa névoa de
civilidade, enquanto num canto acanhado da terra, brincava-se simples, de
horizontes dourados e gotículas cruas e ingênuas, sobre o mato para pés
descalços e salvos da tola e fragilizada polidez.
Betonicou©
Membro da academia de letras de Santa Luzia ( Aluz) ocupando a cadeira Manoel de Barros. "A Deus toda a gloria!" Até aqui o Senhor me tem guiado.
Arte: Laurel Burch
Betonicou©
Membro da academia de letras de Santa Luzia ( Aluz) ocupando a cadeira Manoel de Barros. "A Deus toda a gloria!" Até aqui o Senhor me tem guiado.