Vejo um final
pelas janelas. Vejo as flores de uma aquarela prestes a cair. Vejo o sol da
primavera acenando para um outono que, está por perto, está por vir. Vejo
o aceno das cores vermelhas, num início de tarde, após as aquareladas irmãs, num
jardim florido de saudade. Vejo a luz, como a luz de velas. Esse é o retorno
ao meu juízo final. Não há sol após a primavera, nem outono: há apenas minha
era de um tempo todo glacial. Porém, ainda vejo à luz de velas, pelas fechadas
janelas das manhãs. Ainda sonho o mar com suas naus de velas, levando minhas
lembranças velhas, nas ondas de memorias tão anciãs. E vejo o sol, reduzido, à
uma tênue luz singela, trazendo uma tarde. Vejo a despedida em nuvens vermelhas, que de tão belo eu faço alarde. Ainda tem noite de lua, no final da estação de
cores, suaves, quentes e belas. Vejo lá no horizonte, raios de sol, surgindo por
entre as nuvens, que são mar, avançando feito caravelas. Percebo que: quem se
despenca, são sementes, plantadas para as coisas mais singelas. Vejo ainda pelas janelas, tantas coisas que são belas: um sol com vento, uma tarde,
um enluarado beijo, acanhado, nos singelos bancos de capelas.
Betonicou©
Arte: Anna Silivonchik