Amanheceu tão solar. As tardes ficam à espreita e as noites, com certeza, conseguem me encontrar. Os varais estão cansados das roupas sujas dos quintais. As chuvas se derramam, molhando o que era seco, sem juízo e sem sinais.
Entardeceram as lembranças que nem mesmo eu preciso repensar. Relembrar as cenas sem sentido, sem rosto, com máscaras, que das memórias não consigo mais tirar. É o mar! São esses os rios calados do meu interno desespero. São as margens despreparadas para apoiar meu transbordante destempero. Os meus lares são tão bonitos que acalmam os caminhos dessa trama. O dia vem todo com juízo, que seca, ilumina e apazigua com águas claras todo esse drama.
As margens estão caladas, com seus riachos calmos e brisas a lhe
acalentarem a face açoitada. Os olhos estão multicores, com as cores das
flores, a lhes emprestarem o jardim para a alma agora acalentada. O orvalho
cai, antagônico, às tempestades dos dias, tardes e noites de expressões
tumultuadas. O sossego refresca a alma, atada em redes numa árvore do arvoredo,
com o ar carregado do leve e açucarado odor dos roseirais. Amanheceu
ensolarado, mas entardeceu, com o sol se pondo, enquanto a noite nos espreitava
e nos emprestava um sono, na paz, em meio aos temporais.
Betonicou©
Arte:Anna Silivonchik