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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Pais e órfãos © Copyright


O que queres de mim, pai ausente? Fez-me sofredor, sem teu afago e teu colo! Onde ecoa teu brado, lá, eu choro! Sou o pranto, o filho abandonado, às margens de tuas águas vermelhas.

Se o penhor desta igualdade nos torna filhos iguais, onde estará o meu lugar em teu seio? Conquistou-se com nosso braço forte A tua liberdade. Onde estará a nossa provisão neste quinhão? Penhorou-se?

Minha vida por ti! Onde receber o justo pago devido a mim? No Ipiranga, a busca pelo plácido suscitou-se, porém, as águas continuam vermelhas pelo teu desdouro.

O que queres de mim, pátria amada? Se te adoramos e clamamos em brado forte? Onde pousar os nossos sonhos? Ali, tu foste gerado. Ali, tu morreste, por ter-me esquecido às tuas margens.

O que fazer se deixou-me a perecer em teu rio de sangue? E a esperança, de um dia, Poder alcançar o real desejo por ti? Do povo, o maior anseio!

Perderam-se os raios brilhantes. O nosso amanhã sombreou-se. Estará, para sempre, o nosso céu, em nuvens carregadas e escurecidas? E nossas almas, quando vislumbrarão O tão sonhado e belo e esplendoroso porvir?

Qual será o meu legado, Diante do gigante, que diz ser pai gentil? Sozinho ou morto, em teu berço esplêndido? Do Ipiranga ao estige! Abandonou-me no leito do teu rio, sem nau a levar-me ao norte.

O filho varonil e sem medo não acolhe. Manténs-me em segredo, em teu grito de liberdade ou morte! Brasil!

O que nos pariu senão a barriga de todo o descaso? Vidas dormentes e brincadeiras leves Serão o nosso único refúgio.

Ah, mãe! Essa nos deu o berço de seu interno amparo, enquanto as nuvens nos moldavam as fábulas singelas acima desse solo de pai falso varonil.

Onde seus dragões vomitam fogos de lama vermelha. Afogam-nos em sonhos sufocados e inertes.

 

 
By betonicou




Obras de Candido Portinari.

 Mariana e Brumadinho, por vocês eu choro.