Não
sei onde estou. Ainda não me encontrei, e sigo com a sensação de que talvez eu
precise ser diferente do que sou para alcançar aquilo que sonhei. Caminho sem
saber aonde vou, tentando alçar voo das ruas apertadas, passageiro das
aventuras que atravessam vias desesperadas. Nas ladeiras da vida me derramei
quase por inteiro; nas subidas íngremes, me despenquei — bem brasileiro. Ando
por ruas escuras em busca de distração, enquanto nas calçadas repousa,
adormecida, a minha razão.
Procuro
sempre algo desigual nas avenidas que atravesso. Vejo Marias desfiguradas, como
num quadro cansado de Picasso, e não sei em que ponto o tempo presente perdeu a
forma. Só sei que o coração pulsa inquieto, às vezes indolente, marcando um
ritmo que não aprendi a seguir. Tenho asas de papel machê e, ainda assim,
desejo voar leve, com a inocência dos anjos de matinê, como se o mundo pudesse
ser salvo por um gesto simples.
Não
sei se algum dia voei nos meus delírios ou se o sonho apenas ficou para trás.
Hoje permaneço aqui, prudente, pulsante, tolo e emotivo. Conheço quase todos os
meus medos e continuo procurando um sentido para amar, um motivo que não
desmorone ao primeiro vento. Leio nuvens no céu como quem busca respostas no
próprio juízo, e minhas partidas são sempre acenos largos, nunca despedidas
contidas.
Sou
paixão torta, às vezes desperdiçada; sou excesso e falta ao mesmo tempo. Não
sei se sou simples ou complexo, mas sigo. Espero que um vento me encontre, que
me leve para cima sem violência, que eu volte a cantar e a sorrir sem choro, e
que, depois do voo, eu consiga pousar — finalmente — sem desespero.

