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curvas, retas e esquinas

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Renascimento © Copyright


 Derramar tão cedo, com flores prestes a nascer, é entregar a vida a um começo.  Espelhar a vida, com o sol despontando no amanhecer e os amarelos canários e pardos pardais anunciando, é como uma prece daquela calma e as brisas, são carinhos que tocam toda a alma.  Se derramar tão cedo, é como uma oração ao renascer e enxergar a vida, a cada começo. Ver chegando o sol todo brilhando, é a vida da alma e se for chuva, é o mar de cima acariciando e fazendo de tudo, que tão bem conheço. E todos esses jeitos são notas de uma canção e quando chegam, à noite, tudo se transforma, de novo em oração. E tornar a dormir, como num ventre prestes a renascer, é tornar a ver o recomeço! São as cortinas dessa vida. É singela cantiga leve e poesia, tão bem definida!   Se derramar de novo e acordar o que vem nascer, são as puras mães anunciando; e cada renascer reluz e refrete, como um espelho.  E as manhãs, são canções que proclamam minha vida, tua vida, nossa vida.
by betonicou
Arte: Maria Pace-Wynters e Claudia tremblay

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Paz de corvo © Copyright





Caiu do céu uma flor e despencou-se, de meus olhos. Caíram folhas e entornaram os anjos que voejavam meus sonhos. O universo vomitou os seus corvos na minha rua. As bandeiras já não tremulam as minhas cores brancas. Saíram para passear e não retornaram, as minhas ovelhas. Tudo é soma, até a sorte que nos deixa e despreza. Tudo é conquista, pois até o que se perde, às vezes e´ sorte. Caíram do céu e despencaram-se as nuvens macias do azul. Porém, o azul e´ lindo e   as nuvens embaçavam- lhe os sentidos. O que é o frio, senão o escuro sem calor que nos envolve, ou o silencio que buscamos na música que nos fere os ouvidos? A minha paz é branca, porém a guerra, e´ que tinge minha bandeira. O universo canta o meu silêncio, porém meu frio pede lã. Ainda caem tempestades onde apenas o orvalho é necessário. Não, ainda digo que não sei onde caem as minhas flores! A certeza, é que caíram de mim, no fechar dos meus olhos. O azul e´ lindo, porém, é o marrom que se aproxima; dia a dia. Meus pássaros imaginários cantam e voam nas minhas preces. Oh! - O inverno chegou e minhas asas congelaram-se no seu voo. Mãos se aproximam e não me deixam cair sobre meus próprios espinhos. As minhas preces são elevadas e entregues em bicos de pífaros. Digo que não sei! Finjo que não sei da luz que se apagou. Eu sei que caiu aquela flor e minhas águas desaguaram. As minhas preces foram ouvidas e ditas a mim pelos gorjeios. São os pássaros, a me carregarem   no balaio do meu sono. E eu estive onde o ar já não sustentava as minhas asas quebradas. As nuvens que caíram receberam-me, no macio do seu conforto. Eram agora, melhores que o azul que se pôs distante; no infinito. Branca, é a paz que circula as janelas, para o meu mundo interno.
  
 by betonicou- 


Arte: Huginn e Muninn -Ren Gran

domingo, 24 de março de 2019

Fugaz © Copyright



Quando se for, a saudade do amor não vale. Quanto se vale, é o peso do que ficou nos suspiros. As nuvens estão macias e o espirito encontrou travesseiro, à medida que  o ar lhe preparava os caminhos leves para dormir. 


A alma gorjeava, com sua leveza a tocar o sol e o vento dissipava como poeira póstuma, os restos do amor, que na saudade havia sido sepultado. A leveza voava seu passarinhar cósmico e sem pudor tocava as estrelas.

As lembranças vagavam desajustadas num redemoinho louco, porque na memória, se esperava teimoso uma vã ilusão. O vento levava flores que rodopiavam bêbadas num ar alcoolizado enquanto a lua sorria; debochada.

Era a rede, a cama para deslumbrar a escuridão que vinha com suas sombras voantes, à medida que a paixão fugia tola pelas janelas abertas de um olhar mais claro. Se se mede o amor; aquele era mais baixo que minhas sonhadas nuvens. 

by betonicou - Arte: Yana Fefelova 

sábado, 16 de março de 2019

Equilibrio © Copyright



Amanheceu tão solar. As tardes ficam à espreita e as noites, com certeza conseguem me encontrar. Os varais estão cansados das roupas sujas dos quintais e as chuvas, se derramam molhando o que era seco; sem juízo e sem sinais.   Entardeceram   as lembranças que eu, nem mesmo preciso repensar. Relembrar as cenas sem sentidos, sem rostos, com máscaras que das memórias, nem consigo mais tirar. É o mar! São esses, os rios calados do meu interno desespero. São as margens despreparadas, em apoiar meu transbordante destempero. Os meus lares são tão bonitos, que acalmam os caminhos dessa trama. O dia vem, todo com juízo, que seca, ilumina e apazigua com águas claras, todo esse drama.  As margens estão caladas, com seus riachos calmos e brisas, a lhe acalentarem a face açoitada. Os olhos estão multicores, com as cores das flores a lhes emprestarem o jardim, para a alma agora acalentada. O orvalho cai, antagônico às tempestades dos dias, tardes e noites de expressões tumultuadas. O sossego   refresca a alma atada em redes aos arvoredos, com o ar em volta carregado do leve e açucarado odor dos roseirais. Amanheceu ensolarado e entardeceu, com o sol se pondo enquanto a noite, nos espreitava e nos emprestava um sono, na paz em meio aos temporais.   
by betonicou- Arte:Anna Silivonchik

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Mariposas , lobos e ruas. .© Copyright


 



Noite de estrelas e um homem sai às ruas. Esbarra-se nas mariposas, nas rebeldes falcatruas. São tantas estrelas que vagueiam pelas ruas. São tantas luas refletidas nas poças das ruas nuas. O ar viciado embriaga o senso dos desavisados e o tabaco flutua, em vapores secos e opacos. Na noite em que as cores se acinzentam, os lobos caçam e as lobas amamentam. Os animais noturnos acuam e devoram. As mariposas perdem suas asas nos ares e são devoradas nos sujos balcões dos bares. As estrelas estão vermelhas e os olhos cansados trocam as cores deturpando o sentido cristalino. Na calçada, um homem vive seu lado desatino. Vagam pelas ruas, as mulheres rameiras. Tristes vagam pelas misérias; sem eiras nem beiras. Nessa noite, por mais sombria que seja vagam os tolos boêmios e cantam suas lindas asneiras. Na calçada cambaleia um homem, com tom embargado e cantante. Fuma seu cigarro barato, o revezando   com a gaita, num tocar melancólico e angustiante. Um tombo, um levantar, um sentar desajustado. Mesmo assim sopra suas notas num soprar triste e embriagado. Entre as lágrimas e a dor do coração partido procura refúgio, num pobre amor pago e distorcido. Sob a fria lua, um desabafo jogado pelas ruas. Nas ruas dançam as mariposas sem asas; pobres e nuas. Numa noite de estrelas e mágoas cambaleiam as criaturas pisando, em distorcidos reflexos de luas, nas cinzentas poças das ruas.   






  by betonicou


 Arte:Marina Podgaevskaya-Moonlight by Marcin Wolski





sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Pais e orfãos© Copyright

O que queres de mim pai ausente, se sofrido me fez sem teu afago e teu colo?  Onde ecoa teu brado, lá eu choro!  Sou o teu pranto, teu filho abandonado às margens de tuas águas vermelhas. Se o penhor desta igualdade nos torna filhos iguais onde estará, o nosso lugar em teu seio? Conquistara-se com nosso braço forte, a tua liberdade. Onde estará a nossa parte neste quinhão? Penhorou-se? Minha vida por ti! Onde receber o justo pago devido, a mim? No Ipiranga, a busca pelo plácido se deu, porém aquelas águas continuam vermelhas pelo teu desdouro O que queres de mim pátria amada?! Se te adoramos, e clamamos em brado forte, onde ainda repousa os nossos sonhos, Ali, tu foste gerado e ali mesmo tu morreste, por ter-me esquecido às tuas margens. O que fazer, se depois deixou-me perecer em teu rio de sangue? E a esperança de um dia poder alcançar o real desejo em ti? Do povo, o maior anseio! Perderam-se os raios brilhantes, e o nosso amanhã sombreou-se. Sempre estará o nosso céu enegrecido? E nossas almas, quando se alegrarão mais uma vez, em um belo e esplendoroso porvir?!  Qual seria o meu legado, diante do gigante que se diz, pai gentil? Sozinho ou morto em teu berço esplêndido? Fostes tragado pelo negro e abandonou-me no leito do teu rio de liberdade. O filho varonil e sem medo, não acolhe, e manténs-me em segredo, em teu grito de liberdade ou morte!  Brasil! O que nos pariu senão, a barriga de todo o descaso? Vidas dormentes, e brincadeiras leves serão, o nosso único refúgio. Ah, mãe! Essa nos deu o berço de seu interno amparo enquanto as nuvens nos moldavam as fabulas singelas, acima desse solo de pai, falso varonil; onde seus dragões vomitam seus fogos de lama vermelha e nos afogam, em sonhos sufocados e inertes.
By betonicou




Obras de Candido Portnari.

 Mariana e Brumadinho, por vocês eu choro.





domingo, 20 de janeiro de 2019

Samba ,suor e canela © Copyright

Lá da janela pode-se ver chovendo, torrentes de pingos d’água. Pode-se ver, a maravilha desencadeada e quando batem no chão viram flor. Pode-se ver, as pernas da menina enlameadas e no rosto um sorriso emanando todo frescor. Sua saia desfigurada, toda colorida rodopiava, em uma dança de chuva que à alma toda lavava. Trazia no corpo, as ondas que tudo sambava e o tempo todo, tudo à sua volta de alegria pulava.  Os pingos formavam as enxurradas e seu corpo moreno tinham as mechas descabeladas que serpenteavam, todas molhadas. Morena do campo, desabrochando, feito flor. Pela janela sinto o vento! Vi correndo, a mulata assanhada e seus quadris de sambar rebolavam trazendo ao meu peito, um bater de tambor. E a inocência desequilibrada ofegava, de tanto que saltitava o meu peito que precisava se conter, de tanto ansiar o corpo molhado, e o seu acanelado odor.  Querendo sambar, suas saias abriram-se num descortinar de cortinas deixando à mostra, todo aquele céu das meninas. Milhões de orvalhos chamando sem parar! De tanto que meus olhos olharam essa maravilha vejo, a pura Inocência quase tímida, a brilhar! E da janela vou vivendo aquarelas de visões.   Ela vem toda suada, toda misturada com aquela chuva trazendo, um sambar dos furacões. Saio lá fora e vou correndo, para abraçar a deusa molhada, com suas saias desfiguradas. Que coisa linda essa rainha das sensações! Agora sem timidez, toda assanhada rodopiava e me abraçando desarmava, meus já descasados botões.
 By betonicou 
Arte: R.Paschoal