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curvas, retas e esquinas

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Paz de corvo © Copyright





Caiu do céu uma flor e despencou-se, de meus olhos. Caíram folhas e entornaram os anjos que voejavam meus sonhos. O universo vomitou os seus corvos na minha rua. As bandeiras já não tremulam as minhas cores brancas. Saíram para passear e não retornaram, as minhas ovelhas. Tudo é soma, até a sorte que nos deixa e despreza. Tudo é conquista, pois até o que se perde, às vezes e´ sorte. Caíram do céu e despencaram-se as nuvens macias do azul. Porém, o azul e´ lindo e   as nuvens embaçavam- lhe os sentidos. O que é o frio, senão o escuro sem calor que nos envolve, ou o silencio que buscamos na música que nos fere os ouvidos? A minha paz é branca, porém a guerra, e´ que tinge minha bandeira. O universo canta o meu silêncio, porém meu frio pede lã. Ainda caem tempestades onde apenas o orvalho é necessário. Não, ainda digo que não sei onde caem as minhas flores! A certeza, é que caíram de mim, no fechar dos meus olhos. O azul e´ lindo, porém, é o marrom que se aproxima; dia a dia. Meus pássaros imaginários cantam e voam nas minhas preces. Oh! - O inverno chegou e minhas asas congelaram-se no seu voo. Mãos se aproximam e não me deixam cair sobre meus próprios espinhos. As minhas preces são elevadas e entregues em bicos de pífaros. Digo que não sei! Finjo que não sei da luz que se apagou. Eu sei que caiu aquela flor e minhas águas desaguaram. As minhas preces foram ouvidas e ditas a mim pelos gorjeios. São os pássaros, a me carregarem   no balaio do meu sono. E eu estive onde o ar já não sustentava as minhas asas quebradas. As nuvens que caíram receberam-me, no macio do seu conforto. Eram agora, melhores que o azul que se pôs distante; no infinito. Branca, é a paz que circula as janelas, para o meu mundo interno.
  
 by betonicou- 


Arte: Huginn e Muninn -Ren Gran

domingo, 24 de março de 2019

Fugaz © Copyright



Quando se for, a saudade do amor não vale. Quanto se vale, é o peso do que ficou nos suspiros. As nuvens estão macias e o espirito encontrou travesseiro, à medida que  o ar lhe preparava os caminhos leves para dormir. 


A alma gorjeava, com sua leveza a tocar o sol e o vento dissipava como poeira póstuma, os restos do amor, que na saudade havia sido sepultado. A leveza voava seu passarinhar cósmico e sem pudor tocava as estrelas.

As lembranças vagavam desajustadas num redemoinho louco, porque na memória, se esperava teimoso uma vã ilusão. O vento levava flores que rodopiavam bêbadas num ar alcoolizado enquanto a lua sorria; debochada.

Era a rede, a cama para deslumbrar a escuridão que vinha com suas sombras voantes, à medida que a paixão fugia tola pelas janelas abertas de um olhar mais claro. Se se mede o amor; aquele era mais baixo que minhas sonhadas nuvens. 

by betonicou - Arte: Yana Fefelova 

sábado, 16 de março de 2019

Equilibrio © Copyright



Amanheceu tão solar. As tardes ficam à espreita e as noites, com certeza conseguem me encontrar. Os varais estão cansados das roupas sujas dos quintais e as chuvas, se derramam molhando o que era seco; sem juízo e sem sinais.   Entardeceram   as lembranças que eu, nem mesmo preciso repensar. Relembrar as cenas sem sentidos, sem rostos, com máscaras que das memórias, nem consigo mais tirar. É o mar! São esses, os rios calados do meu interno desespero. São as margens despreparadas, em apoiar meu transbordante destempero. Os meus lares são tão bonitos, que acalmam os caminhos dessa trama. O dia vem, todo com juízo, que seca, ilumina e apazigua com águas claras, todo esse drama.  As margens estão caladas, com seus riachos calmos e brisas, a lhe acalentarem a face açoitada. Os olhos estão multicores, com as cores das flores a lhes emprestarem o jardim, para a alma agora acalentada. O orvalho cai, antagônico às tempestades dos dias, tardes e noites de expressões tumultuadas. O sossego   refresca a alma atada em redes aos arvoredos, com o ar em volta carregado do leve e açucarado odor dos roseirais. Amanheceu ensolarado e entardeceu, com o sol se pondo enquanto a noite, nos espreitava e nos emprestava um sono, na paz em meio aos temporais.   
by betonicou- Arte:Anna Silivonchik

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Mariposas , lobos e ruas. .© Copyright


 



Noite de estrelas e um homem sai às ruas. Esbarra-se nas mariposas, nas rebeldes falcatruas. São tantas estrelas que vagueiam pelas ruas. São tantas luas refletidas nas poças das ruas nuas. O ar viciado embriaga o senso dos desavisados e o tabaco flutua, em vapores secos e opacos. Na noite em que as cores se acinzentam, os lobos caçam e as lobas amamentam. Os animais noturnos acuam e devoram. As mariposas perdem suas asas nos ares e são devoradas nos sujos balcões dos bares. As estrelas estão vermelhas e os olhos cansados trocam as cores deturpando o sentido cristalino. Na calçada, um homem vive seu lado desatino. Vagam pelas ruas, as mulheres rameiras. Tristes vagam pelas misérias; sem eiras nem beiras. Nessa noite, por mais sombria que seja vagam os tolos boêmios e cantam suas lindas asneiras. Na calçada cambaleia um homem, com tom embargado e cantante. Fuma seu cigarro barato, o revezando   com a gaita, num tocar melancólico e angustiante. Um tombo, um levantar, um sentar desajustado. Mesmo assim sopra suas notas num soprar triste e embriagado. Entre as lágrimas e a dor do coração partido procura refúgio, num pobre amor pago e distorcido. Sob a fria lua, um desabafo jogado pelas ruas. Nas ruas dançam as mariposas sem asas; pobres e nuas. Numa noite de estrelas e mágoas cambaleiam as criaturas pisando, em distorcidos reflexos de luas, nas cinzentas poças das ruas.   






  by betonicou


 Arte:Marina Podgaevskaya-Moonlight by Marcin Wolski





sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Pais e orfãos© Copyright

O que queres de mim pai ausente, se sofrido me fez sem teu afago e teu colo?  Onde ecoa teu brado, lá eu choro!  Sou o teu pranto, teu filho abandonado às margens de tuas águas vermelhas. Se o penhor desta igualdade nos torna filhos iguais onde estará, o nosso lugar em teu seio? Conquistara-se com nosso braço forte, a tua liberdade. Onde estará a nossa parte neste quinhão? Penhorou-se? Minha vida por ti! Onde receber o justo pago devido, a mim? No Ipiranga, a busca pelo plácido se deu, porém aquelas águas continuam vermelhas pelo teu desdouro O que queres de mim pátria amada?! Se te adoramos, e clamamos em brado forte, onde ainda repousa os nossos sonhos, Ali, tu foste gerado e ali mesmo tu morreste, por ter-me esquecido às tuas margens. O que fazer, se depois deixou-me perecer em teu rio de sangue? E a esperança de um dia poder alcançar o real desejo em ti? Do povo, o maior anseio! Perderam-se os raios brilhantes, e o nosso amanhã sombreou-se. Sempre estará o nosso céu enegrecido? E nossas almas, quando se alegrarão mais uma vez, em um belo e esplendoroso porvir?!  Qual seria o meu legado, diante do gigante que se diz, pai gentil? Sozinho ou morto em teu berço esplêndido? Fostes tragado pelo negro e abandonou-me no leito do teu rio de liberdade. O filho varonil e sem medo, não acolhe, e manténs-me em segredo, em teu grito de liberdade ou morte!  Brasil! O que nos pariu senão, a barriga de todo o descaso? Vidas dormentes, e brincadeiras leves serão, o nosso único refúgio. Ah, mãe! Essa nos deu o berço de seu interno amparo enquanto as nuvens nos moldavam as fabulas singelas, acima desse solo de pai, falso varonil; onde seus dragões vomitam seus fogos de lama vermelha e nos afogam, em sonhos sufocados e inertes.
By betonicou




Obras de Candido Portnari.

 Mariana e Brumadinho, por vocês eu choro.





domingo, 20 de janeiro de 2019

Samba ,suor e canela © Copyright

Lá da janela pode-se ver chovendo, torrentes de pingos d’água. Pode-se ver, a maravilha desencadeada e quando batem no chão viram flor. Pode-se ver, as pernas da menina enlameadas e no rosto um sorriso emanando todo frescor. Sua saia desfigurada, toda colorida rodopiava, em uma dança de chuva que à alma toda lavava. Trazia no corpo, as ondas que tudo sambava e o tempo todo, tudo à sua volta de alegria pulava.  Os pingos formavam as enxurradas e seu corpo moreno tinham as mechas descabeladas que serpenteavam, todas molhadas. Morena do campo, desabrochando, feito flor. Pela janela sinto o vento! Vi correndo, a mulata assanhada e seus quadris de sambar rebolavam trazendo ao meu peito, um bater de tambor. E a inocência desequilibrada ofegava, de tanto que saltitava o meu peito que precisava se conter, de tanto ansiar o corpo molhado, e o seu acanelado odor.  Querendo sambar, suas saias abriram-se num descortinar de cortinas deixando à mostra, todo aquele céu das meninas. Milhões de orvalhos chamando sem parar! De tanto que meus olhos olharam essa maravilha vejo, a pura Inocência quase tímida, a brilhar! E da janela vou vivendo aquarelas de visões.   Ela vem toda suada, toda misturada com aquela chuva trazendo, um sambar dos furacões. Saio lá fora e vou correndo, para abraçar a deusa molhada, com suas saias desfiguradas. Que coisa linda essa rainha das sensações! Agora sem timidez, toda assanhada rodopiava e me abraçando desarmava, meus já descasados botões.
 By betonicou 
Arte: R.Paschoal

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Terra Brasis © Copyright

Aqui na minha terra tem as montanhas, com picos de nuvens de giz que riscam meu céu e teu céu noturno de: estrelas, lua e os beijos de quem bem me quis, e te quis.


Na minha terra tem estrelas e pelas manhãs tem sol e canto de bem-te-vis. Tem as tardes serenas, com seres leves e coloridos; essas voantes   ternuras colibris.

No meu horizonte tem montanhas alterosas, com o belo olhar do sol nascente. Tem claros lagos que refletem, a despedida do lindo e majestoso sol poente.

Tem todo esse ar que acaricia as minhas receptivas narinas. Uma janela, uma visão singela, uma chuva que cai, nessa terra de minhas deslumbradas retinas. 

Tem as arvores belas, feito, o imponente tronco arvorado de jequitibá. Tem arvore doce canela ao lado do jatobá. Solo namorado, como essa terra, não há.

Tem o sereno que são pequenas gotas retornadas, aos nossos majestosos rios. Tem as joias: mulatas, loiras, ruivas e negras que são misturas, para nossos delírios.

Tem os sorrisos singelos e tem dança negra de batucada nos pés. Tem os lindos gorjeios que alegram o céu de nossas moradas; concreto, ocas, tetos de telhas ou sapés.  

By betonicou .  


 Arte: Michele Zurine